Comunidade de Vida: a minha Enon
A leitura do Evangelho do Batismo do Senhor fez-me deter em um detalhe aparentemente secundário, mas teologicamente luminoso: “porque havia ali muitas águas” (Jo 3,23). O texto narrava o encontro entre João e Jesus, mas meu coração permaneceu em Enon, o lugar escolhido com discernimento pelo Precursor para selar, com um mergulho concreto, o anúncio da conversão. Não era um detalhe geográfico irrelevante, mas uma escolha carregada de sentido.
Enon, cujo nome significa “olho d’água”, não era uma cidade nem um centro religioso. Era uma região marcada por nascentes, uma geografia aberta, viva, abundante. Sua importância não se deu por muros, templos ou monumentos, mas porque ali muitos foram tocados pela graça e decidiram mudar de vida.
Enon tornou-se importante não pelo que se construiu nela, mas pelo que Deus ali realizou.
Era um espaço capaz de acolher multidões, longe do centro, distante dos grandes circuitos religiosos. Sua localização mais provável na Samaria reforça ainda mais sua força simbólica: terra considerada impura, habitada por pagãos, samaritanos, gente pecadora. Quantos daqueles que eram vistos como desviados, idólatras ou publicanos não desceram àquelas águas? Quantos não emergiram delas com o coração transformado?
Enon era fértil, marcada por água corrente e fluxo constante. O local não inaugura o ministério de João, mas sustenta sua expansão; não é o clímax, mas a transição. Citada apenas uma vez nos Evangelhos, ela marca silenciosamente a passagem do antigo para o novo, do anúncio para o cumprimento.
Meu mergulho em Enon
Na véspera de ouvir esse Evangelho, eu havia passado dois dias em uma casa da Comunidade de Vida Shalom, em tempo de férias. Cada ida àquela casa é, para mim, ocasião de regeneração.
A acolhida singela, a convivência fraterna, os risos, as partilhas, a doação silenciosa de cada irmão são como fontes abundantes. Ali, também eu me sinto mergulhado em uma realidade que se assemelha às águas de Enon.
Os que passaram por Enon foram batizados em Enon, mas não permaneceram ali. Eles continuaram a missão de batizar, agora de outro modo: pela contemplação, pela unidade, pela evangelização. A água deu lugar à vida oferecida, mas a missão permaneceu a mesma.
Foi em Enon que João compreendeu, com clareza, que era preciso diminuir para que o Jesus aparecesse. Na Enon da Comunidade de Vida, à medida que cada irmão diminui pela oferta de uma vida reconciliada e doada, o Cordeiro Ressuscitado se torna visível. Não por teoria, mas por uma vida transformada.
O mundo de hoje precisa de Enon. Precisa dessas fontes discretas, desses espaços onde ainda é possível mergulhar nas águas restauradoras da graça. O mundo de hoje precisa do testemunho da Comunidade de Vida: um lugar que se torna geografia de conversão para os tempos atuais.
Queridos irmãos da Comunidade de Vida, o testemunho de vocês não se esgota em si mesmo. Ele aponta para Alguém maior, para Aquele que os atraiu e lhes confiou uma missão: não apenas serem fonte, mas também batizadores, sinais vivos que apontam para o Cordeiro Santo.
Obrigado aos irmãos da Comunidade de Vida.
Post dedicado a RG2.

Padre, eu que agradeço por sua vida tão cheia de Deus! És um grande testemunho para mim. Gratidão!
ResponderExcluirPadre, sua vida é também descanso e oásis para nós. Muito bom ter você conosco.
ResponderExcluirObrigada por essa partilha que muito renova nosso sim diário e nosso desejo de viver o Evangelho de verdade.
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