Brasas vivas
O braseiro do incenso estava fumegante.
Diante do altar, enquanto a fumaça densa se elevava aos céus, meus olhos permaneciam fixos à frente, mas a memória viajava para trás. Aquele lugar despertava lembranças adormecidas e me conduzia a uma silenciosa contemplação da história que Deus escreveu em minha vida.
Primeiro, retornei aos meus vinte anos, quando participei da minha primeira reciclagem, um retiro de dez dias, seguida de outras sete subsequentes. Mas a memória quis ir ainda mais longe. Levou-me a 1997, quando fiz meu primeiro retiro prolongado, s Escola de Líderes Shalom. Eu tinha apenas dezessete anos. O coração ardia de entusiasmo, a alma estava abrasada pelo desejo de Deus.
Naquele tempo, meus sonhos e minha sede espiritual pareciam aqueles grãos de incenso que, ao tocar a brasa viva, se consumiam para subir em forma de louvor.
Estar no presbitério naquela celebração despertou um sentimento muito particular. Durante a primeira reciclagem, no ano 2000, fui escalado para servir na liturgia como acólito. Todos os dias, preparava a âmbula, depositando cuidadosamente as hóstias naquele vaso sagrado. Recordei-me de um detalhe que jamais esqueci. Meu formador pessoal, Elisiano Macedo, conhecido como Lano, que também participava daquele retiro, ensinou-me a organizá-las em círculos, uma sobre a outra.
— Era assim que Santa Teresinha fazia, disse.
Nunca me esqueci daquela orientação simples.
E então, ali estava eu. Anos depois, consagrando o corpo de Cristo.
Quanta bondade de Deus.
Rostos e cenas se enfileiravam na minha mente pedindo atenção. As celebrações no estilo judaico como Purim, Yon Kipur, Chanucá; a vez me fiz de morto em uma brincadeira no alojamento masculino e acabaram chamando o coordenador e eu quase morri de verdade - risos - as fortes experiência no Louvor da manhã, ainda não tinha Laudes. Lembro-me de um que foi quase duas horas de duração.
Marilan coordenando, uma das primeiras reciclagens da Dilce que agora está no Conselho, Aladir pregando o Fio de Ouro, Gustavo Osterno quando ainda estava em Floripa, dr. Ivan Ramos ainda estudante, os jogos, as partilhas, os risos, a Lulu dando formação sobre a história da Igreja, o seu Humberto…
Participei daquela missa a convite de Gleison, um amigo que tem sido instrumento da Providência para me conduzir a lugares onde reencontro partes importantes da minha história. Lugares onde Deus integra fragmentos da minha caminhada que, muitas vezes, eu mesmo não percebia estarem separados.
É como se o homem que sou hoje encontrasse aquele jovem do passado. Não como nas imagens produzidas por inteligência artificial, que rapidamente revelam sua artificialidade. Mas no eterno presente de Deus, onde passado e presente se unem numa mesma realidade iluminada pela graça.
Olho para trás e faço uma pergunta a mim mesmo:
Valeu a pena?
E a resposta surge serena, sem hesitação:
Vale a pena.
A celebração marcava a renovação dos votos no celibato de Gleison, seminarista que atualmente integra a equipe de formação do Discipulado do Eusébio, uma das casas de formação da Comunidade Shalom, onde os missionários vivem um intenso período de aprofundamento vocacional e espiritual.
Tudo foi preparado com esmero: a liturgia, os cantos, os gestos, os detalhes. Depois da missa, o jantar e as homenagens carregavam aquela marca tão característica da Comunidade Shalom: uma profundidade que sabe ser, ao mesmo tempo, celebrativa, afetuosa e tocante.
Voltei para casa refletindo sobre o amor de Deus.
Sobre o quanto Ele me protege.
Sobre quantas vezes, mesmo quando não compreendo seus caminhos, Ele continua trabalhando silenciosamente.
Enquanto observava aquelas pessoas durante a missa, uma imensa gratidão tomou conta de mim. Via nelas brasas vivas que o Senhor acendia para sua Igreja. Pensava nos sacrifícios, nas renúncias e na generosidade escondida por trás de cada vocação ali presente.
Por um instante, porém, deparei-me também com minha própria pobreza. Com minha falta de fé em tantos momentos. Com os “nãos” que dei ao Senhor. Com as protelações, os medos e as resistências que acumulei ao longo da caminhada.
A imagem que me veio ao coração foi a de carvões molhados, aparentemente incapazes de produzir fogo.
Mas então aconteceu algo inesperado.
Uma brasa divina tocou aquelas pobres brasas adormecidas.
E elas voltaram a arder.
Não por mérito próprio, mas pela ação daquele que faz novas todas as coisas.
Era o Sagrado Coração de Jesus incendiando novamente minha vida com seu fogo recriador.
Ao final daquela noite, compreendi mais uma vez que a obra de Deus não termina. Ele continua soprando sobre as cinzas, reacendendo o que julgávamos perdido e devolvendo calor ao que parecia frio.
Porque o amor de Deus nunca deixa de ser fogo.


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